Clique numa das páginas para opções

domingo, 27 de dezembro de 2015

(des)abrigo

















Já não sei

se de ti ainda me abrigo

como um castigo

com que tenha de lidar

assim como não sei  se consigo

sequer de mim me abrigar


há dias em que quero

ainda fugir

só que já nem sei por onde ir

nem para que lado;

se para onde enfrento,

se para onde me evado



a raiva que entretanto secou

por esses dias de evasão

a inveja que já se rasgou

desfeita pela ilusão

de que um dia

os dias não mais

seriam de negação

mas sim de fogo

de renascimento



e já passaram  mais de mil

desses dias de lamento

onde continuo a habitar

nesses dias ainda vagos

que continuam rasgados

e cheios de nada
que os possa completar.


(que me perdoe MTHorta por lhe roubar o mote) 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

vermelho, ou assim


















O quarto de paredes carmim
Ou carmesim, magenta quiçá
Ou de qualquer outra cor assim
Assim quente e envolvente
A cama ardente e grená
A afoguear
A vermelhidão
A inflamar a paixão
candente sentia meu corpo a latejar
ávido desse teu inferno esbraseado
nele todo me queria arder
todo me queria incendiar
e queimar-me até morrer
E deitado nas chamas desse leito
Enquanto nelas ardia
Extasiado assistia
À volúpia - também ela rubra
desse ritual a preceito
quase do outro mundo
a visão ficava turva
ao contemplar os seios
de alabastro a reluzir no carmim
num reflexo rubicundo
e quase ensandecia
ao vê-los serem cobertos
por esse negligée de cetim
também ele carmesim
escarlate, rubi
ou de outro vermelho assim

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

o fantasma

























E de repente o imenso vazio
Havia essa presença numa ausência estranha
Olhava mas não via, sentia
Pairava etérea, a melancolia
As molduras fitavam-me
Como se delas fosse sair o retrato
Para chamar os objectos que jaziam
Já sem senso, deslocados
Prontos a ser empilhados, levados
Cada um à vez nesse ritual frígido
Fragmentos de vida, pedaços
Farrapos, retalhos de amor espalhados
No chão, na noite, atolando os espaços

Testemunha dessa agonia
Circunstante dessa desdita,
O fantasma que ali vivia,
Saía debaixo das escadas,
Animava-me a abrir as portadas
mostrava-me a luz do dia

e enquanto à lareira eu morria
hialino, sentava-se ao meu lado
silente, velando a minha amargura
e quando a ultima brasa já se extinguia
e a minha alma em dor se esvaía
escada acima me carregava com brandura

e com o sossego desse colo
no leito desmaiava confortado
porquanto ele me vigilava o sono;
e era no ensejo desse paliativo momento
que eu abafava o isolamento
que amordaçava o abandono.

Angústia para o jantar




Sento-me para jantar
E tão contente eu fico
Poder conversar com a cadeira da frente
Que bom, uma refeição quente
Hoje a angústia não está tão temperada
Não critico, pontifico

Logo, danada, a cadeira do lado
Protesta com ciúme
Fui eu quem a pôs ao lume
Se a queres mais picante
Reclama com essa vizinha pedante
Que só te quer para nela te sentares
Quando a mim me tens só para amares
Desprezas a minha atenção
Cobarde, és incapaz de lhe dizer não
Pois fica com ela
Não te perdoo essa traição

Descontente e mudo me quedo
Incrédulo com esta ciumeira
Não bastava já a gata e a sua miadeira ?
Já aturo a cama a reclamar que está fria
A almofada a dizer que está vazia
A moldura com a sua carpideira

Mas nada mais me atormenta
Do que ainda ter que lidar
Com o capricho singular
De uma cadeira ciumenta

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ut Icarus
















que tortura, essa incessante procura      
que delíquio, que vertigem constante
desvairada busca, cruciante loucura
rostos, desgostos, cenário alucinante   

instala-se o degredo, pela vida fora
vazio este exílio, sem novas, sem luz
pelo tempo perdura, o sangue devora
busco auxílio, o segredo não me seduz

quisera ser Ícaro e até ao sol voar
desse labirinto poder assim escapar
e cadente, despenho-me a perceber

que se esse amor não encontrar
a procura apenas irá findar
no dia em que por ele morrer.

sábado, 3 de outubro de 2015

onírico














Nada me importa que me chamem tolo
Insensato, tonto ou obcecado
Se no fogo dessa paixão eu me imolo
Pois arde hoje como ardia no passado

Não quero saber se vivo num devaneio
Fantasiando esse querer tão lírico
Pela galáxia do sonho eu vagueio
Qual cometa num universo onírico

E a realidade assim finjo iludir
Exausto por ser do amor sua preia
A esse encanto acabo por sucumbir

Incapaz de o vencer por mais que lute,
Enfeitiça-me o canto dessa sereia
E soçobro, ao navegar sem azimute


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

dúvida



Não sei nem presumo se porventura me lês
A certeza que assumo é de que não me vês
Pela dúvida, detenho-me a cogitar
Se em mim ainda podes por vezes pensar

Na imponderada invasão de um sonho
Ou  nalgum gesto ou  reflexo (eu suponho)
Na visão inesperada duma fotografia
Cismo se haverá mera réstia de empatia

Mas na verdade nada disso agora importa
Saciar a curiosidade só por pueril consolo
Porque a vida segue rua íngreme e torta

E sem retorno pelo caminho já andado
Por este sonhador tão insano e tolo
Que  um dia se julgou, infinitamente amado.

muro














Palavras
Da minha lavra
Ao meu jeito, do meu peito
Adjectivos
Elogios
A ferver as emoções
De amor
De benquerença
Tombam desiludidas
Feridas
Contra o muro
Da tua indiferença.

Falava eu de um coração
Emparedado
Temente dos laivos da paixão
Muro pelo teu sorriso derrubado
Pelo teu amor enlevado
Derrete-se vencendo o medo
Revelando o segredo
Acendendo a chama
Porque coração temente
É coração que não ama.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

volta para mim



















Volta para mim

Volta, liberta-me
Deste abismo sem fundo
Que eu te darei o mundo
Plantado de alecrim

Volta, afasta-me
Dessa impiedosa voragem
Que eu cobrirei a tua imagem
Com as flores do jasmim

Volta, salva-me
Desta desdita, desta vida nua
Que eu te darei a lua
Revestida a marfim

Não deixes
Que para sempre
Me condene
À saudade perene
Ao sexo de querubim

Volta, chama-me de novo
Tua paixão, teu amor
beija-me
em cada beijo uma flor
na tua boca um jardim
abraça-me, enfim…


volta para mim.