E de repente o imenso vazio
Havia essa presença numa ausência estranha
Olhava mas não via, sentia
Pairava etérea, a melancolia
As molduras fitavam-me
Como se delas fosse sair o retrato
Para chamar os objectos que jaziam
Já sem senso, deslocados
Prontos a ser empilhados, levados
Cada um à vez nesse ritual frígido
Fragmentos de vida, pedaços
Farrapos, retalhos de amor espalhados
No chão, na noite, atolando os espaços
Testemunha dessa agonia
Circunstante dessa desdita,
O fantasma que ali vivia,
Saía debaixo das escadas,
Saía debaixo das escadas,
Animava-me a abrir as portadas
mostrava-me a luz do dia
e enquanto à lareira eu morria
hialino, sentava-se ao meu lado
silente, velando a minha amargura
e quando a ultima brasa já se extinguia
e a minha alma em dor
se esvaía
escada acima me carregava com brandura
e com o sossego desse colo
no leito desmaiava confortado
porquanto ele me vigilava o sono;
e era no ensejo desse paliativo momento
que eu abafava o isolamento
que amordaçava o abandono.


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