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quinta-feira, 12 de março de 2009

redução de pessoal




Naquele dia, Lagartixa foi incumbida de colocar pelas paredes os memorandos relativos à nova lei do tabaco. Afinal era uma medida que se impunha, pois segundo estudo do DHST, o tempo não produtivo causado pelos fumadores induzia um prejuízo de milhares e milhares de euros por mês, tal como 30 tabelas em excel, 2 apresentações de power point e um relatório de 37 páginas em word, demonstravam. Perante tão brilhantes cálculos, havia que acabar com essa pouca vergonha do tabaco. Era também uma questão de higiene e segurança, pois era preciso zelar pela saúde dos funcionários, e mesmo o facto de trabalharem sem vestuário e calçado próprios, não invalidava o poderem morrrer de fumo, o que implicaria uma despesa avultada em coroas de flores para os funerais. Sibilino colaborou no estudo, não por pelouro, mas sim por simpatia, tal era o seu conhecido horror ao fumo (mais do que ao vinho, diga-se ), portanto empenhou-se afincadamente. Designou para sala de chuto um espaço muito alto e aberto, em cujo tecto instalou uma ventoinha, inútil, dadas as características do local. Mas pronto. Colocou também o autocolante azul de lei, um cinzeiro e voilá : um espaço onde quem fosse fumar poderia ser facilmente visto, sendo assim muito mais fácil controlar os fumadores, além de ser mais barato e discreto, pois poupava-se mais uma câmara de vigilância. Desencentivou também, por escrito, ameaçando com processo disciplinar quem prevaricasse.

Mr. I assinou os memorandos com satisfação. Mais uma poupança ! Que gestor que era ! - constatou; e, voltando-se para Sibilino :

- Sibelino, quer dizer, mande a Lagartixa afixar os papéis. E ande em cima do Ninguém, que agora é que eu o vou apanhar a subtrair, quer dizer, tempo ao trabalho. Se não conseguir, invente um motivo qualquer só para o chatear, que esse gajo enerva-me, quer dizer pá, pois pá, não é ?

Sibilino anuiu com um sorriso de satisfação, e engatilhou :- de facto sr. I, sim porque como o sr.I sabe, na secção dele tem muitas máquinas a fazer pó e algum lixo, que é aspirado, como o sr.I sabe, pelas grelhas do ar condicionado. Ora, eu já o desliguei durante metade do dia, e esses preguiçosos, como o sr.I sabe, não apanham o pó à mão e atiram-no para as condutas debaixo do chão, o que é inadmissível, pois como o sr.I sabe, as condutas são para se manterem sempre limpas e sem pó, e eu não posso fazer isso, pois não tenho ninguém habilitado para tal, e por uma quetão de economia, como o sr.I sabe, não se podem limpar as condutas.

Portanto, vou responsabilizá-lo por esse facto, se é que lhe parece bem sr.I...

-Magnífico, Sibelino !- esganiçou - vai ser tão certinho como o litro ser igual ao quilo, quer dizer, não é ?

Saiu escritório fora e foi mostrar aos empregados que ele era o patrão, sim porque quem não aparece, esquece. Deu a sua volta acelerada pelas secções e verificou que as máquinas ainda estavam no mesmo sítio, que as operárias ainda eram as mesmas de ontem, e ficou deprimido. Só queria acordar e tudo isso ter desaparecido, pois não percebia como era possível ainda ter tanta gente a quem pagar salário, depois de já ter pressionado metade para sair, e depois de já ter recusado tantas encomendas.
-"Bom ! - pensou- não há outra maneira senão recusar, quer dizer, ainda mais encomendas. Afinal, há que ser inteligente, não é pá, quer dizer pá, se eu quero mandar as pessoas embora, que outra solução me resta senão a de não aceitar encomendas ? Não é ? Quer dizer pá.

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