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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

rotina mat( I )nal


Levantou-se aborrecido. Que maçada. Tinha que ir trabalhar. Mas quem raio inventou o trabalho? Pessoas para aturar, contas para pagar, decisões, invejas, pressões, dinheiro.
Decisões é que é o pior. O resto ainda vá lá; agora ter que resolver a quem dar razão, a quem pagar, a quem comprar...o melhor é delegar em alguém. Isso, que bela ideia. Se eu pago para me lamberem os pneus do Cachena todos os dias, nada me impede que também pague para resolverem por mim, para se preocuparem por mim, para assinarem os cheques por mim. Está feito.

Este pensamento animou-o. Sentia-se bem melhor agora. Durou pouco. Constatou que o mordomo ainda não tinha o banho pronto. Protestou com voz esganiçada a lembrar um garnizé, não um galifão, sem crista. Haveria de ser justo, porque afinal o desgraçado do mordomo, que já se havia levantado às 5 da manhã para lamber o Cachena, o Beemer, o Carreira, o One, o Wrangler, o Com-nome-de-jogo e a Shazam, não ia adivinhar que ele tivesse tido uma insónia provocada pelo jogo de golfe ( tornara a perder para aquele convencido do Kaká, que ainda por cima tinha uns tacos bem inferiores aos seus ), e que iria acordar mais cedo. Mas enfim, criado, escravo, capacho, o que for, não tem direito a indignação ou protesto, pelo que acatou pacientemente os silvos em si-bemol que I proferia.

Depois de se ter ensaboado com 3 tipos de gel diferentes, um para os bícepes, outro para as pernas e outro para o rabo, saiu, revigorado, para a ginástica matinal. Antes, barbeou-se, usando uma espuma com pH neutro para não irritar a tão delicada pele, imberbe e macia como o rabinho de um bebé. Mas usou a gilette na mesma. Alguns pêlos despontavam, que vergonha ! Colocou uma máscara hidratante de óleo de amêndoas doces e aloé vera, e seguiu para a sala de ginástica. Em tronco nú, de calção e ténis brancos e fez 200 abdominais, 100 flexões e 10 minutos de salto à corda, trocando de vez em quando as mãos, assim como fazem os gajos dos filmes.

Um duche rápido e seguiu para o vestíbulo, onde já tinha a roupa preparada, sapato preto, calça clássica, camisa Ralph Lauren branca com arabescos pretos muito ténues, t-shirt por dentro e casaco de malha de gola levantada Hugo Boss.
Verificou o risco ao meio, mirou-se 27 vezes ao espelho, concluiu estar lindo, ensaiou o sorriso idiota de meio lábio a cobrir metade dos dentes, deu uma gargalhada esganiçada, e pronto, sentiu-se perfeito e com coragem para enfrentar os tais a quem pagava para trabalhar por ele.

Estacionou o Cachena, e verificou com agrado que o mordomo já chegara, e já tinha o Shazam pronto para a hora de almoço. Só os pobres é que vão almoçar no mesmo carro, rico que se preze deve trocar de carro para ir almoçar, convenhamos.
Tirou a pasta do banco de trás, mirou-se mais uma vez nos vidros reluzentes do Cachena, e dirigiu-se ao escritório. Hoje tinha de ir à produção, dar uma volta na fábrica. Que maçada !- pensou. Mas teria de ir, para dar a imagem de interesse e preocupação como faz qualquer patrão. Suspirou, e consolou-se com a ideia de que as operárias iriam todas achar que ele estava muito bonito, bem vestido, simpático.

Dirigiu-se com passo apressado e curto, pés meio de lado, mãos caídas junto ao corpo, uma segurando o PDA, outra solta para saudar as pessoas, ao jeito dos presidentes americanos, aquele aceno e sorriso hipócritas, para americano ver. Cabeça meio erguida, olhando mas nada vendo, nada percebendo do que via, olhava com um ar de interesse forçado, e perguntou, de passagem, que luz vermelha era aquela na máquina. “- é o indicador de máquina ligada, Sr. I “. Satisfeito com a resposta, não fosse o pessoal pensar que ele nada via, entrou no primeiro gabinete da produção. Proferiu um “huuuummm ? “ de simpatia, deu um sorriso, o tal de metade do lábio, passou a mão livre pelo cabelinho à foda-se, cumprimentou com a mão a direito, inerte, flácida, repugnante até, e perguntou se estava tudo bem. Sentou-se e nada disse. Silêncio. Passaram mais 5 minutos, e continuou sem nada dizer. O interlocutor, sem jeito, tentou arranjar tema, assim um pouco semelhante ao síndrome do elevador, e ele ouvia sem escutar, mortinho por um telefonema que o safasse daquela situação embaraçosa. O silêncio continuou, o telefone não deu sinal, até que se levantou e foi silenciar para outra freguesia.

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