João Pereira Coutinho nasceu em 1976 na cidade do Porto. Formado em História, na variante de História da Arte, é pós-graduado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde também ensina como professor convidado. Entre 1998 e 2003, foi colunista do jornal “O Independente”. As colunas desse período foram reunidas no livro “Vida Independente: 1998-2003”, editadas em Portugal em 2004. É colunista do jornal português “Expresso” e da Folha Online, entre outros.
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Calor - Montesquieu tinha razão: diferentes regimes políticos florescem com diferentes variações climáticas. É possível que o prostetantismo explique o desenvolvimento económico (e político) dos países do Norte. Mas o clima tem uma palavra decisiva no processo : trabalhar com 15 graus é infinatamente mais piedoso do que trabalhar com 40. O calor é incompatível com uma existência produtiva e, no meu caso pessoal, um convite à indolência e à agressividade. Quando o termómetro excede o razoável, sou como Mersault, o pobre Mersault de Camus que, depois do funeral da mãe, mata um estranho qualquer porque um raio de sol lhe ofuscou a razão.
O calor é o bafo distante desse Inferno que espera por nós.
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Dentistas - Mantenho alguns traços de infância. Pelo menos, dizem que sim - e eu, naturalmente, acredito. Detesto sopa - ainda. Tenho um certo horror a palhaços - com traje ou sem ele. E, claro, quando marcho para o dentista, deixo sempre um testamento escrito e mergulho numa combinação rara de calmantes e soporíferos que me transformam numa versão moderna de Ofélia a boiar no rio.
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Escrever - Perguntam-me regularmente se escrevo para mim ou a pensar no leitor.
A pergunta não faz qualquer sentido. Eu sou o leitor.
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Pornografia - Confesso que não consumo. O problema da pornografia é que no enquadramento há sempre um pénis a mais.
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Promiscuidade - De acordo coma literatura do género, os homens são criaturas naturalmente promíscuas, que não resistem aos inevitáveis apelos da carne. As mulheres, aliás, gostam de afirmar o facto : monogamia é virtude feminina, não masculina; só elas sãos capazes de respeitar o fardo da fidelidade. Não tenciono contestar a tese. Mas nesta história toda, talvez não fosse má ideia esclarecer com quem os machos costumam prevaricar.
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Vingança -Há na vingança uma nobreza que não contesto nem critico. Dar a outra face, a herança verdadeiramente revolucionária do cristianismo, sempre me pareceu exigência sobre-humana para matéria tão corruptível. Melhor procurar justiça terrena e repôr o equilíbrio perdido. Não que eu seja exemplo, entendam. Não sou. Por disposição ou natureza, não sou uma criatura vingativa. Quanto muito, sou vingativo por inacção. Eu conto sempre com os outros para arruinarem as suas próprias vidas


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